Corte de cabelo

Gosto de cigarro e cerveja barata. Aquele amargo existencial da ressaca intelectual. Quase aquele momento de Drummond com 'pomar, amor, cantar'. Futilidades da vida. Até que ele veio.

Aquele homem de cabelos bem branquinhos entrou no estabelecimento, um salão, e logo a mulher já perguntou de que ano era seu fusca, ela tinha um de 75. Estacionou ali na frente, ela tinha visto. Era de 70. No entanto, não foi comprado há muito tempo não. Comprou para pescar com os netos. Ah, sim. Os pequeninos gostavam muito de pescar e tinha que ser com o vovô! Pobre do avô se não pudesse, era um escarcéu só! Os netinhos iam felizes da vida pescar com o grande senhor de cabelos brancos. Não consegui escutar o nome do velhinho, mas a senhora parecia conhecê-lo. Agora começou a cortar o cabelo dele. Com grande pesar ele contava que agora já não usava mais tanto o fusca assim. Os netos já não querem mais sair. Querem jogos de videogame, jogos no computador, jogos e mais jogos. Confessou que hoje em dia, não dá nem pra passar na frente da televisão e não escutar um "saia da frente, vô!". Cabelos brancos no chão. Um branquinho tão triste. Triste de saudades  do tempo que os netos o queriam sempre por perto. Tempo nem tão distante assim. Pagou, levantou e foi embora.

Comentários

Anônimo disse…
Perfeito :) Manda bem com as palavras...

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