O vizinho Dom Casmurro
Ele estava ali na portaria sentado tranquilamente olhando as
crianças brincarem do outro lado da rua. Aquele senhor um pouco ranzinza, mas
ainda sim com um grande pesar no coração. Observando os pequenos, contava como
fora sua juventude. Um pouco estranho ele conversar daquele jeito, sempre era
muito reticente. Talvez um Dom Casmurro atual. Eu gostava de observá-lo contando suas aventuras
pueris ou de observá-lo ao longe fitando a todos de sua janela. Já não era um senhor muito sociável, depois do enfisema se fechou ainda
mais. Triste foi quando passei por ali e ele ensinava a outro senhor como
funcionava seu aparelho de oxigênio. Heartbreak. Eram dias muito secos e ele não aguentava
ficar mais que trinta minutos fora de casa, mas ainda sim se esforçava para
viver normalmente. Uma tentativa de vida, infelizmente. Estranho se importar com alguém que não se tem contato, mas aquele senhorzinho naquela situação passa uma impressão de que algo tem que ser feito por ele. Mas enquanto eu organizava meus pensamentos, ele já se foi. Subiu. Lá era mais fresco e relativamente mais fácil de se respirar. Inerte, olhando pela sacada o vazio que o mundo lhe trouxera. Algo simples como respirar, já não era mais simples e assim, de longe, ele fitava o mundo.

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