Pastel na feira
Ele nunca gostou de términos. Ah, não. Ele bem que fugia muito bem deles. Eu lembro até hoje daquele dia em que eu tentei sim, covardemente, terminar com ele pelo telefone. Ele chorava e me ludibriava com palavras de sofrimento. Sempre soubemos que eu nunca refutei palavras ditas por homens com os rostos cobertos por lágrimas. Ele chorou. Eu, em silêncio, chorei. Lembrei de todos aqueles momentos em que ele me enrolou carinhosamente em sua nuvem e me confortou. Seu jeito de amar sempre foi diferente, mas eu sentia amor ali.
Eu lembro daquela primeira vez em que eu adormeci em seus braços sem ter tomado meus remédios. Ele me abraçava tão forte, tão cuidadoso e tão reconfortante como se não houvesse um amanhã. Foi ali que voltei a ser a pessoa feliz e confiante que um dia eu havia conhecido.
Eu lembro até hoje do olhar dele enquanto eu descia nua as escadas de sua casa. Naquele momento eu me senti a mulher mais amada de todos os tempos. Ele sempre me amou, eu sei. Eu conseguia sim ver o brilho dos seus olhos ao me ver sorridente ao acordar em seus braços. Eu fui sim amada.
Eu lembro dos nossos risos bobos e das nossas brincadeiras que sempre acabavam em mordidas. Das nossas festas. Das nossas cervejadas. Das nossas bebedeiras. Do tanto de barro que nós voltávamos para casa. Do gosto de cigarro barato na boca.
Sabe, tudo o que eu me lembro são lembranças de lençóis brancos e colchas azuis. Eu consigo sentir em minha pele ainda o toque do lençol branco em que dormíamos. Era como se eu fosse abraçada por um milhão de sensações diferentes. Sim, eu também te amei.
Um cheiro
Um toque
Um lençol
Um beijo
Um abraço
Um pastel na feira
Mas as coisas são finitas. Sentimentos mudam, passam e eu precisava sim do meu tempo. De mim. E só de mim. Então eu fiz o que era certo. Eu voltei ali e abri meu coração. Terminamos dignamente. Você me fez rolinho de empatia e eu te fiz homem.

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